domingo, 29 de setembro de 2013

Felicidade Relativa

Para ler Ouvindo: Cotidiano - Chico Buarque



Marcelo acordou de um sobre salto, estava transtornado, ele bateu a mão no despertador que parou imediatamente de tocar – nossa que pesadelo.

Ele foi a até o banheiro, ligou o chuveiro que soltou a surpreendente água gelada em suas costas, ele sentiu como sua mãe costuma dizer “a espinha congelar”, vestiu seu uniforme e como sempre foi a casa de seu tio que fica parede a parede no mesmo quintal.

- Nossa, que cara péssima, brigou com a Lúcia, foi? – Marcelo nem tinha batido na porta o tio estava fumando na janela da casa.
- Bom dia tio, que nada, tive um pesadelo o senhor sabe que a vida não tá fácil, né?
- Verdade, você acha que resolve aquele problema hoje?
- Tenho fé em Deus que hoje sai o vale! Por falar em problema tio, o senhor pode me emprestar a bicicleta?
- Claro meu filho, já te falei, não tem porque andar sete quilômetros a pé.
Marcelo montou na magrela que era só um pouco mais que ele e começou a pedalar mas antes da segunda pedalada disse:
- Deus abençoa tio!

Quando chegou no mercado Marcelo ainda estava com o pesadelo na cabeça, mas mesmo assim trabalhou com vontade, arrumou as prateleiras de maneira impecável como sempre, mas entre um gota de suor e outra ele sentia aquele calafrio. Na hora do almoço ele fez a ligação de todo dia, porem desta vez fez antes de comer, enquanto comia o ovo da marmita que sempre era o último Marcelo pensou em algo para remediar o gosto ruim, não do ovo e sim do pesadelo.

- Dona Marluce, tudo bem? Posso usar o telefone prometo que é rápido, é que o crédito do meu celular acabou e eu ainda preciso falar com o povo.
- Claro Marcelo – disse a mulher espantada – pode usar sim, você nunca pediu para usar o telefone, tá tudo bem?
- Tá sim só uma noite mau dormida.
A ligação levou apenas alguns segundos, Marluce ouviu Marcelo dizer:
- Muito obrigado mesmo viu do Dona Iara, a noite eu falo com a senhora tá? Deus Abençoa!
O homem agradeceu e ai saindo da sala.
- Marcelo!
- Sim dona Marluce?
- Hoje é dia de vale – Quando o homem se virou já estava na mão da mulher um envelope com o seu nome escrito em caneta azul, desta vez ele não agradeceu, apenas sorriu, pela primeira vez no dia o sorriso dele iluminou o escritório do mercado de tal maneira que as pessoas que estavam no campo de visão dele sorriram também.
- Você vai dobrar a jornada hoje?
- Claro dona Marluce, sempre!

Mais trabalho, mais braço, o caminhão chegou, Marcelo suou, suou como suava todo dia, correu como corria todo dia, mas o pesadelo ainda martelava a sua cabeça.

Quando deu tempo foi tomar um café e fumar um cigarro escondido, fora o pessoal do trabalho ninguém sabia que ele fumava. Ainda tinha que mandar um SMS, usou os últimos centavos do seu crédito. Pronto!

Já tarde da noite Marcelo saiu novamente de casa, de calça branca e camisa salmão, perfumado estava com aspecto melhor, porem seu rosto ainda trazia um pesadelo, ele pegou o ônibus que o levaria para o centro, que sorte o motorista era conhecido da vila, o deixou entrar pela porta de trás.

Quando Lucia saiu do trabalho estava preocupada porque depois da ligação normal de todo dia que recebia do Marcelo ela recebeu um SMS dizendo que ele ia busca-la, isso não era necessariamente raro, mas não de repente assim e com certeza não com a cara que ele estava...

- Amor, tá tudo bem? Só recebi a sua mensagem na minha pausa 10, você sabe que eu não fico com celular, Aconteceu alguma coisa com o Luquinha?

Marcelo sentiu uma alegria muito grande só de ver Lucia, então para tranquilizar a mulher ele fez sinal de negativo e lhe agarrou pela cintura, deu um abraço enorme e em seguida a beijou longamente, mesmo estando ali na frente do emprego da mulher, não ligou para o que as pessoas falaram e até gritaram para o casal de pombinhos. Não tivesse Marcelo pedido a mulher em casamento a três semanas ela acharia que hoje seria o dia.

Depois que o beijo acabou a mulher faz cara de interrogação e Marcelo disse:

- Vamos Jantar – a mulher ficou mais espantada ainda – Já falei com sua mãe, pedi a ela que cuidasse do Luquinha, ajudei ele a fazer a lição, essa noite a gente volta de metrô - a mulher riu meio pra si meio para ele e pensou em voz alta.
- Claro, minha mãe faz tudo que você pede!

Lucia sabia que Marcelo ia lhe falar algo, sabia que não estava em perigo, pois ele não era de fazer suspense, só esperava o memento certo, pegou na mão do seu amado e resolveu aproveitar a lua, ele em retribuição pegou sua mochila o que ajudou a ela a andar menos curvada. Ha quem fique com medo de ver alguém tão magra carregar mochila tão grande e pesada.

- Você vai comer mais uma esfiha?! – Disse Marcelo espantado.
- Claro! Você sabe que eu só tenho vinte minutos de janta! - Marcelo riu para sua namorada, mulher e mãe de seu filho, e na cumplicidade do olhar ela disse.
- Vai Marcelo, fala o que foi? – ele respirou fundo e começou.
- Sabe aquelas paradas que seu irmão...
- Ele tava bêbado - disse baixinho a mulher.
- Eu sei amor, eu sei. Mas foi pesado - a voz do homem ficou mais grave - dizer que eu não tenho nada na vida além do meu braço.  Diminuir você e dizer que eu vou me enjoar de minha magrela. Sabe essas coisas bateram forte no meu coração.

A mulher sentiu um arrepio por toda a sua pele e um vento gelar sua espinha. Tudo isso foi para o rosto ossudo de Lúcia.

- Calma amor, não é nada disso, vai ouvindo! – A mulher pareceu se recuperar do mini infarto, e ele continuou – Quando você saiu hoje para faculdade eu voltei a dormir, e tive um puta pesadelo.

- Sonhei que não tinha te conhecido no colégio que, que tinha terminado, tinha ralado e depois eu tinha entrada na faculdade, nesse sonho eu tinha uma carreira, era realizado e ganhava bem, muito bem.

- Como isso pode ser um pesadelo? – Disse mulher com cara de espanto.

- Amor, como eu te disse, não tínhamos nos encontrado no colégio e por isso não tínhamos o Luquinha, e uma vez que você não ficou grávida eu não me meti em confusão e não puxei uma etapa...

A mulher sabia o quanto era difícil para ele falar do período que ele ficou preso e por isso não quis interromper, só continuou escutando.

- Por outro lado este outro eu, no sonho tinha um vida certinha, com dinheiro e sem compromisso nenhum, então um dia ele andava na rua e encontrava você e o Luqinha com outro homem e se lembrava de ser eu! Da vida que tínhamos juntos. Da vida que temos juntos!

- Estou confusa! – disse a mulher, Marcelo se arrumou na cadeira olhou novamente para a mulher e disse:

- Amor esta noite eu sonhei que não te tinha, sonhei que a primeira mulher que eu tive não era mais minha, sonhei que tinha dinheiro e que não tinha mais nada, e cheguei uma conclusão, hoje eu não quero nenhuma outra vida que não seja essa que eu tenho a seu lado! Eu te amo! E vou te amar para sempre!

Lúcia estava chorando e Marcelo a agarrou e lhe deu um beijo que veio com gosto da farinha da esfiha, mas não tinha problema era ela a mulher que ele queria para sempre, era ela a mulher escolhida para mãe do seu filho, era para ela que ele entregava seu vale transporte para chegar a faculdade e em troca ia a pé ou de bicicleta ao trabalho e era ela que ia ficar furiosa com ele por tomar banho gelado, porque no dia do vale ele teve um pesadelo e por isso esqueceu de pagar a conta de luz...





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Depois de muito tempo, ai está um novo texto, ao contrário das outras vezes eu tenho mais, estou escrevendo outros e pretendo coloca-los aqui para breve.

Bem vindos de volta, e para você que está aqui pela primeira vez, seja bem vindo e deixe aqui embaixo a sua opinião.

Força Sempre!





2 comentários:

J.Paula Ferreira disse...

"... Lhe deu um beijo que veio com o gosto da farinha da esfiha..." adorei isso que é o intimo da intimidade!

Karoline Pedro disse...

Amei seu texto, não sei porque parou de escrever, mas não pare mais

Terminal

Aqui é o fim da linha, se você não sair agora vai ter que voltar e começar tudo de novo.