sexta-feira, 2 de maio de 2008

Prelúdio [C.A.]

Para ler ouvindo: o som do mar.

foto: kindian

Já se vão quase seis anos de campanha, uma campanha sangrenta, felizmente sangrenta para o inimigo.

Um homem de guerra tem notícias a dar a seu comandante. Este homem não é um qualquer, ele é o capitão, um homem cunhado na batalha, um homem criado para servir a sua terra, praticamente uma máquina de matar, mas, hoje seu coração está apertado e seu espírito inquieto.

Por sua vez, o comandante também não é um qualquer. É conhecido apenas com uma alcunha: Cavaleiro Azul.

O capitão se sente seguro ao lado do Cavaleiro, pois, sabe que é um homem honrado. Lembra-se que pouco antes da campanha ter início ele apareceu, alardeou a chegada do inimigo e ajudou na preparação para defesa. Tornou-se o campeão da princesa, com qual se corresponde periodicamente - o capitão sabe disto pois, é ele pessoalmente que entrega a correspondência ao mensageiro.

Já se vão quase dois anos que a espada do Cavaleiro vem guiando os soldados em pleno campo inimigo, cada batalha uma vitória, nem sempre completa, mas sempre em vantagem para eles, os homens que vem seguindo o cavaleiro, ao menos até hoje.

Para dar as notícias o capitão foi encontrar o Cavaleiro em um lugar de meditação, de frente a um precipício que termina no mar, um homem de armadura azul contempla a imensidão azul do mar encontrando o céu.

Antes de dar as notícias, o capitão precisou parar. Precisava respirar, deixar a idéias se assentarem em sua cabeça.

- Percebo preocupação em você capitão - o capitão estava tão longe que quase não ouviu o a voz do Cavaleiro, este tipo de percepção sempre causa arrepios ao capitão.
- Milorde – disse o capitão se aproximando - a equipe de reconhecimento não trouxe boas noticias, a contagem preliminar do inimigo é...
- É maior que o dobro da nossa batalha mais sangrenta - completou o Cavaleiro interrompendo o capitão.

Um silêncio embaraçoso cortou a manhã quente de verão, o capitão perdeu o raciocínio. Parecia que o som do mar lambendo as pedras estava mais alto seus pensamentos voaram e ele acabou por se perguntar porque o cavaleiro não havia tirado sua armadura como todos os outros.

- Capitão conheço-lhe bem. Sei que não estaria com o espírito abalado desta forma se não fosse realmente sério - continuou o homem de armadura – Diga-me, sente saudades de casa?
- Mas é claro milorde, todos sentimos.
- Está na hora de voltar, não está?
- Mas, se voltarmos daqui com todo o efetivo seremos pegos no meio do caminho.
- Sim, mas, se derrotarmos o inimigo ele não conseguirá nos seguir, principalmente quando sairmos de suas terras.
- Derrotar como milorde, se temos quase cem para um?
- Amigo capitão - O Cavaleiro Azul se virou e o homem se surpreendeu mais ainda ao perceber que ele estava de armadura completa e com o elmo abaixado - Alguma vez eu o decepcionei?

Embaraçado o homem respondeu:

- Não milorde.

O Cavaleiro abriu o seu elmo e o homem pode perceber que ele sorria, um sorriso franco de um jovem, embora ninguém soubesse ao certo sua idade. O Cavaleiro tirou de seu elmo um sândalo.

- Amigo entregue isto ao mensageiro, peça a ele que entregue a princesa Suzanna. Ele deve partir ainda hoje.
- Sim milorde, mas alguma mensagem ou carta? - O cavaleiro olhou para o mar mais uma vez, e respirou fundo como se estive sem respirar a dias e respondeu:
- Não. O vento vai dizer lento o que virá.

Mais um silêncio. Parecia que o Cavaleiro Azul estava se despedindo daquele momento. Mais uma vez o som das ondas acariciando o mar se fazia presente.

- Capitão, conversaremos mais tarde para traçar nossa estratégia, mas, lhe adianto que ao final desta batalha você e suas tropas marcharão para casa.
- Nós? E senhor milorde?
- Vocês vão precisar de um sinal avisando a hora da partida. Aconteça o que acontecer, não parem, estarei com vocês no futuro.

O capitão pensou em argumentar, mas era inútil. Não queria esperar queria falar agora com ele sobre a estratégia, queria saber o que ele faria. Desistiu e já ia saindo quando o Cavaleiro o disse:

- É um prazer servir a seu lado capitão.
- Digo o mesmo milorde!
- E capitão, não se preocupe, pois, Deus está do lado de quem vai vencer!

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No próximo episódio:
Corajosos correm.
Sangue, sal e areia.
Um estranho galope faz a terra tremer!

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Este texto tem mais realidade do que parece!

Obrigado a Tatá Bueno pela força na revisão e a Samara por ajudar na escolha da imagem.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Busca

Para ler ouvindo: The Doors - Riders on the Storm


Então, de uma pedra que poderia estar no meio do deserto, mas disto não saberemos, pois não há como saber onde fica o meio do deserto, o homem olha para o céu:

- Meu coração está apertado, quero saber onde está.

O vento envolve o homem o suficiente para tirar seus pés do chão. Ele carrega o homem e sopra a seu coração.

- O que te aflige?
- Eu não encontro - diz o homem em tom de tristeza.

Pobre homem, não sabe procurar – pensa o vento – Vou levá-lo a alguém capaz de abrir teus olhos.

- Pra onde está me levando?
- Vou te levar para o Sol, ele vai abrir as portas de sua percepção – soprou o vento nos ouvidos do homem.
- O que você quer? - disse o sol para o homem.
- Eu não encontro – Ao vento parecia que ele estava mais triste.

O sol e o vento não são bem versados, não tem o traquejo necessário para uma conversa ou orientação, mesmo que o objeto da busca esteja a um palmo, com isso em mente usando a linguagem do mundo, o sol pediu ajuda ao vento e ao deserto.

- Temos que fazê-lo enxergar.

Tão logo essa ordem foi dada o deserto emprestou suas areias ao vento que as espalhou por léguas é léguas de distância, cobrindo todo o deserto do homem, mas para não ficar de fora o sol brilhou ainda mais forte, mostrando toda a sua coroa de rei e iluminando aquela tempestade de areia como um domingo ensolarado.
Depois de muito tempo uma mão erguida significava algo. Os elementos pararam.

- Desisto! - gritou o homem - Não consigo abrir os olhos, como vou encontrar?

Se o sol, o vento e o deserto tivessem rostos seria possível ver neles a decepção.

- Vou levá-lo! – soprou o vento, tão baixo que o homem quase não ouviu.

Quando descia, o homem pode ver surgir no horizonte a gaivota que tanto o ajudou no passado, sabia que ela poderia ajudá-lo, no entanto, ao contrário dos elementos a gaivota não perguntou nada e foi direto ao assunto.

- Já fizemos esta busca juntos tantas vezes, não acredito que você não consegue ver. - Da mesma forma que chegou a gaivota se foi, o homem pode vê-la se transformar em uma gaivota dourada e sumir no horizonte.

Quase no chão, o homem sentiu uma imensa vontade de chorar, não havia encontrado o que procurava e sentia que seus amigos estavam desapontados. Quando esse pensamento lhe dominava, uma força descomunal o sacudiu e o jogou no chão de uma forma que ele a muito não sentia. Percebeu que essa força que o derrubava vinha de dentro do seu ser, parecia que não queria apenas derrubá-lo, mas esmurrá-lo, como um homem pode esmurrar a si mesmo? Foi quando o vento parou de soprar, o deserto ficou no mais absoluto silêncio, até o sol diminuiu sua intensidade para acompanhar com clareza o que aconteceria. O homem ouviu uma voz que parecia vir de todos os seus poros.

- Homem tolo, sou o que você procura, estou em você, não ao redor, pois na verdade sou você e sempre estarei aqui. Sou o seu sonho!

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Foto: Márcio Brigo

O texto faz referencia a "O Alquimista" de Paulo Coelho e a "Fernão Capelo Gaivota" e outras obras de Richard Bach.

Quero agradcer minhas amigas, Irene e Samara, que deram uma força na revisão deste texto.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Encontro

Para Ler ouvindo: Fadas - Luiz Melodia


Lá vai ele pra casa, dia tranqüilo, seu trabalho foi realizado com sucesso. No metrô, sentou-se – play – a música vai fazer o tempo passar mais depressa. Tudo está transcorrendo bem até que na estação seguinte ela apareceu, sua sensação era de que o tempo não existe mais, ele a viu. Linda em seus movimentos, cheiros, mãos e cabelos, tudo isso, seria normal, no entanto ela o estava olhando – estranho – ele está acostumado a olhar, mas está sendo observado, não vulgaridade, mas com ternura. Discretamente ele percebe até um sorriso. Deus como é linda - pensa ele sentindo uma dor estranha no peito, pudera, o espanto foi tamanho que ele se esqueceu de respirar. Ele tem que faz algo, mas o quê?

Pra inicio de conversar pensar já seria bom. Ele saca do celular (coisa de pessoa urbana) pensa homem, ela pode ser a mãe de seus filhos. Já sei!

Ele escreve. “VC E LINDA” – mas que falta de criatividade, não dá tempo de compor uma obra literária completa. Ele estica o braço para garota, com tanto medo de uma negativa que quase fecha os olhos.

Ela sorri, ela está correspondendo. Eles começam uma conversa, trocam nomes e informações sobre si, mas ali tem muita gente o metrô não está lotado, mas há de se conversar baixo em um ambiente destes.

Ele meio ressabiado a convida para tomar um ar na próxima estação, caso ele faça algo errado e receba uma negativa, em um lugar mais amplo isso não seria tão notado. Ela aceita, parece estar gostando de suas idéias e de sua conversa.

Ouvimos o som do aviso que a porta vai se fechar, e quando ela se fechar eles serão felizes para sempre, ou talvez não, mas como todos que freqüentam esse lugar sabem, isso já é uma outra história.

Quando usar o metrô na pise na faixa amarela, ela é a garantia da sua segurança!

Foto: Márcio Brigo

domingo, 19 de agosto de 2007

Cansado

Para ler ouvindo Skank - Indignação


Muita gente quando vê essa imagem aí em cima pensa que é fora do país, muitos pensam que é Paris , outros que é Londres ou até mesmo Buenos Aires, mas não, esta é a catedral da Sé em São Paulo, esta foto foi tirada no dia 17 de agosto deste ano. Nesta data acontecia o movimento Cansei, que é constantemente acusado de ser partidário ao contrário do que ele mesmo alega.

Neste dia, como a maioria dos brasileiros, eu levava a minha vida normalmente, não fui lá para ver o movimento agindo, um compromisso me colocou lá perto, tirei as fotos fui até a porta, vi os cartazes e como todos os outros brasileiros continuei a minha vida.

Eu citei a França a Inglaterra e nossos hermanos, porque nestes paises as pessoas se mobilizam, o tambor que bate no jogo do Boca Juniors vai bater na frente da Casa Rosada, os franceses são o povo com o maior índice de leitura do mundo e os ingleses enxergam em sua rainha um exemplo de prosperidade e honestidade.

No Brasil não faltam tambores, livros ou reis, o que falta é justamente partidarismo, isso mesmo, pessoas que tomam partido, pessoas que tem vergonha de morar em um país com 40% de impostos, onde crianças morrem em assaltos em faroís, onde buracos levam microônibus para terra, e eu nem vou falar dos aviões para não ser repetitivo. E não dá para poupar ninguém, nem mesmo eu, pois depois de tirar estas fotos fui embora e segui a minha vida. Me falta indignação, perece que falta a todos nós. Estou cansado mas não me movo, meu nome é povo.

Por último se TODOS nós fôssemos parte de algum movimento partidário não haveria problema algum uma manifestação patrocinada pelo PSDB ou qualquer outro partido, mas parece que apenas eles se movimentam.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Esperança

Para ler ouvindo tudo!



uma gota solta salgada
escorre sem dó ou piedade
em meu rosto já castigado

um dedo a espalha
e por sua vez mistura
com o sal da minha face

respiro fundo
vou correr
inverdade
não tenho forças

minha esperança reside
na força de um dedo
que espalha lágrimas
e que talvez me faça feliz

Estou começando a mudança prometida á muito para este blog!
Este video-texto é apenas o começo!

Entre os próximos textos estão:
"Teresinha" e "Gizele e Lucas"

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Herói

Para ler ouvindo a música abaixo.



Hoje vou falar de heróis, não os que usam cueca por cima das calças (mesmo porque estes são os “super”).

Mas antes de qualquer coisa a definição segundo o dicionário Silveira Bueno.

Homem extraordinário por suas proezas guerreiras, pelo seu valor ou magnanimidade; protagonista de uma obra literária, ou filme.

Não quero aqui pesar o tema, então vamos focar o cotidiano, ok?

Em uma manhã fria estava no metrô Itaquera, fazendo parte de uma fila de mais ou menos trinta metros, a fila da catraca. Esta fila é muito complicada, pois, os desavisados perdem o lugar e podem ter que voltar lá pra trás. Uma senhora umas vinte cabeças a minha frente encostou o Bilhete Único na catraca e ele não passou. Imagine-se em uma fila, de uns trinta metros cercados por outras filas de trinta metros. Não demora muito para que os trinta metros de fila comecem a ficar impacientes pedindo a mulher para dar passagem. Ela começou a procurar em sua bolsa outro bilhete, deu passagem e umas duas pessoas e depois de encontrar outro bilhete o encostou na catraca. Bilhete Recusado.

Tudo isso não levou vinte segundos, então aconteceu o que liga este fato ao tema. Quando o bilhete foi recusado uma segunda vez a mulher não teve tempo nem mesmo olhar para trás, um dos homens que a mulher havia deixado passar voltou e passou o seu bilhete para ela. Eu fiquei paralisado, uma gentileza desta não é comum nesta cidade desvairada. Fiquei observando queria saber mais, o homem nem olhou para trás, não esperou um obrigado. Eu fui atrás da mulher só para ver se ela era amiga dele, não era. Um homem sem identidade, ajudou uma mulher sem identidade, num dia qualquer, sem pedir qualquer coisa, em troca nem mesmo de um obrigado. Se isso não é símbolo de magnanimidade, eu não sei o que pode ser.

Confesso que fui trabalhar feliz, essa demonstração de solidariedade é a meu ver heroísmo. Por que heroísmo? Alem do fato já mencionado, a magnanimidade, este homem pode ter salvo aquela mulher de uma infinidade de problemas, se ela tivesse que voltar para o fim da fila ou se tivesse que comprar um outro bilhete, ela poderia perder uma consulta no médico, um prêmio por pontualidade entre outras coisas

O que aconteceu com a mulher depois disto não temos como saber, eu fiquei me perguntado, se este homem-heroi é único ou faz parte de uma liga que ajuda senhoras a atravessar as catracas do sistema metropolitano de São Paulo.

Cheguei a conclusão que existe essa Liga da Justiça Social, presente nas pessoas que ajudam cegos e pessoas de idade a atravessar as ruas, ensinam as crianças a não jogar lixo nas ruas entre uma infinidade de ações civis, mas esta Liga como nas historias em quadrinhos é sabotada pelo governo, pois, nem sempre o exemplo vem de cima.

Um salve aos Homens-Heróis.

Bem Maior (Luiz e o Anjo)

Texto Publicado no blog Ilusório e Misterioso em 2004

(Para ler ouvindo: Legião Urbana "Os Anjos")


A luz entra por uma fresta e ilumina uma caixa vermelha, com alguns ponteiros que emitem um som, tic, tac. Luiz dorme profunda e tranquilamente, como se tivesse um anjo cantando para ele dormir.

Então o som...

Ninguém gosta deste som, o som do inicio do dia. O anjo pára de cantar, então Luiz abre apenas um olho, localiza a caixa e a arremessa na parede, afinal ele ainda não quer acordar.

Que noite maravilhosa ele tem para lembrar.

Luiz acorda, ainda sente o gosto de cerveja das bocas que beijou, quantas foram? Seis, sete? Ele não lembra.
Mas realmente foi uma noite formidável, não foi uma data especial, foi apenas uma noite como todos as anteriores.

Correndo Luiz sai, além de estar atrasado tem que pegar o seu carro a um quarteirão de distância de sua casa, pois na noite anterior estava tão bêbado que não conseguia mais dirigir.

No caminho para o trabalho Luiz cruzou três semáforos vermelhos, passou de propósito em uma poça de água para fazer uma mulher se molhar e jogou o carro em um cachorro, cachorro esse que só não morreu por que pulou no canteiro central da pista.

Luiz saiu do trabalho direto para o bar e lá encontrou seus "amigos", estava ótimo como sempre.

Mais mulheres, mais bebidas, mais orgia, mais coisas formidáveis, Luiz está entre os seus.

No limiar do mundo espiritual podemos ver um anjo, ele traz em seu corpo as marcas das defesas que faz para o mortal Luiz.

O anjo tem a asa direita quebrada, a asa esquerda toda suja, suas pernas inchadas e a sua aréola quase não brilha. Mesmo assim no dia seguinte ou quando Luiz precisar o anjo estará lá, cantando para ele.

Em um momento de revolta o Anjo pensa:
- Ainda assim ele vai para o céu.


"Bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus" MATEUS 5-3.

sábado, 17 de março de 2007

Um Metrô Para Longe

Para ler ouvindo qualquer música do seu MP3 player.



Parece coisa de esnobe, mas toda vez que alguém me convida para ir a algum lugar a pergunta é sempre automática: “Dá pra ir de metrô?” Quando a resposta é negativa, confesso que fica muito difícil aceitar o convite. Afinal, o metrô vai longe, mas não pode ir a qualquer lugar. Será? Será mesmo que de metrô eu não posso ir à Bahia, por exemplo? Ou à Osasco? Ou ainda à Londres?

Em São Paulo, como em muitas outras grandes cidades, existe o medo de se conversar com um estranho, não sou eu que estou dizendo isso, é um fato mais do que documentado, por livros filmes e peças. O que é muito ruim, porque conversar com as pessoas nos faz ser mais próximos e talvez (e perceba eu disse talvez) com isso a paranóia de cidade grande possa diminuir, pois muito dela (a paranóia) se deve ao fato de sermos pessoas sozinhas e distantes.

Este ano comecei um projeto audacioso, decidi que daria atenção a quem quer que fosse e que sempre que me sentisse com vontade puxaria conversa com as pessoas. Qual não foi a minha surpresa? Conversas sensacionais sobre os assuntos mais diversos. Conheci baixistas, enfermeiras, economistas, fisioterapeutas, mas acima de tudo pessoas.

Respondendo as minhas próprias questões, é possível sim, ir a muitos lugares de metrô, uma vez que nas estações existe muito mais do que concreto e aço, existem pessoas que, em sua grande maioria, estão dispostas a dividir experiências e contar um pouco de suas histórias. Não pretendo, com isso, mover uma campanha para que todos se conversem no metrô. Quem quer falar, fala. Quem não quer, pode (e tem esse direito) se cala, no entanto, na menor das hipóteses, esses diálogos servem ao menos para encurtar a viagem. Mas quando se consegue ir além disso é possível fazer muito, muito mesmo. É possível encontrar um garoto com o livro “O Pequeno Príncipe” em baixo do braço e conversar com ele sobre cinema, é possível encontrar um economista que não conhece a cidade e mostrar a ele que cidade de São Paulo e boa e ruim ao mesmo tempo, é possível encontrar uma auxiliar de enfermagem e falar com ela sobre vida e morte. Em todos estes contatos muitos lugares são visitados. Eu fui e seu eu te encontrar no metrô, levo você comigo.

Revisão: Francisco Razzo

sexta-feira, 16 de março de 2007

Ainda no mesmo assunto...

"Texto original publicado no blog Ilusório e Misterioso no ano de 2004."

Força de Vontade

Para ler ouvindo Led Zeppelin : Kashmir



Milhares de pessoas usam o metrô diariamente em São Paulo, dessas milhares de pessoas a maioria utiliza e linha leste oeste. Desta linha a estação mais distante do centro é Corinthans-Itaquera, as pessoas da periferia chegam até ela através de uma grande estrutura de transporte composta de ônibus e lotação. Os mais afortunados chegam até mesmo de táxi ou carro, mas as diferenças acabam aí, pois assim que desembarcam nas entradas do metrô são todos iguais.
São oito horas da manhã de uma segunda feira, a temperatura gira em torno dos 35 graus, um homem caminha em direção as catracas do metrô Itaquera, ele está meio curvado para frente anda com cuidado como se pudesse derrubar algo, este homem sente uma forte dor em seu ventre.
É como se sua percepção estivesse mudado, o mundo não é mais como era antigamente, seu estado ele não pode garantir que é sólido, ele acredita que pode ser algo entre o líquido e o gasoso.
Muita gente se aperta, se esfrega, se coloca à frente, todos querem o mesmo, mas poucos conseguem o objetivo, na plataforma chega o metrô e a porta abre, as pessoas invadem o vagão como espermatozóides que vão em direção ao óvulo. O homem não toma parte desta corrida, ele está todo arrepiado e sente um suor frio.
Vai começar, após o estouro dos humanos ele entra meio andando, meio empurrado, meio cambaleando algum lugar para sentar seria ótimo, ele não sabe quanto tempo ele pode segurar, porém lugar para sentar é totalmente impossível.
O metrô apita, ele se segura no ferro na parte central do vagão. "Só mais 30 minutos Deus".
Metrô Arthur Alvim, ele procura não pensar em mais nada a não ser em sua situação, afinal se ele se desconcentrar o que pode acontecer?
Entre as estações Arthur Alvim e Patriarca existe o maior espaço entre estações do metrô de São Paulo, ele sabe disto e acredita que se conseguir manter a sua concentração entre estas estações ele estará apto a continuar.
Ele aperta o ferro com tanta força que tem a impressão que pode entorta-lo, Guilermina Esperança.
"Deus eu só preciso de mais alguns minutos", Vila Matilde.
Se ele puder chegar ao shopping Tatuapé talvez ele possa resolver o seu problema, Penha.
Ótima idéia, porem ainda são oito e vinte da manhã, e mesmo que o shopping estivesse aberto ele não conseguiria sair do metrô naquelas condições (suas e do metrô), Carrão.
Tatuapé, é melhor continuar se concentrando ele está se saindo bem, acredita que a força de vontade adquirida hoje lhe será útil no futuro.
Suas mãos transpiram, ele quase não consegue sentir seus pés, seu ventre vez ou outra dá pontadas que o faz quase se dobrar, Belém.
Agora o barulho do metrô no túnel quase faz ele perder a concentração. "Deus mais 12 minutos, por favor", Bresser.
Ele está quase feliz, se é que alguém em seu estado pode ficar feliz, porém neste momento ele vê uma mulher que está bem próxima, ela se levanta e ele volta para sua concentração, porém um barulho seco de batida o trás de volta, a mulher desmaiou e caiu em meio ao metrô lotado, mas o que fazer? Um senhor quebra o dispositivo de segurança "Agora não, pelo amor de Deus" enquanto outro levanta mulher e a recoloca no lugar, no sistema de alto falantes o homem ouve: "Para o usuário que solicitou socorro, ele será prestado na próxima estação!" Brás.
A visão do inferno, pensa o homem, centenas de pessoas na plataforma querendo entrar em um metrô já ocupado por centenas de pessoas, uma mulher passando mal, dois guardas do metrô tentando entrar, pessoas tentando sair e o homem tentando se concentrar, a mulher diz se sentir bem, mesmo sem os guardas terem entrado o metrô segue seu caminho, afinal parar o metrô é parar São Paulo.
O homem se concentrou tanto em sua dor que nem notou a estação Pedro II, só percebeu o espaço que começou a surgir quando chegou a Sé.
Ele acha melhor se aproximar da porta afinal vai descer na próxima estação. Ele se coloca bem na frente da porta, após ela se abrir bastará ele dar um passo e estará fora do metrô. A seu lado uma mulher também aguarda para sair, Anhangabaú.
O metrô está quase parando acontece um solavanco e a mulher a seu lado se desequilibra, encosta no homem, quase o derruba e faz ele perder a concentração "Hoje definitivamente não é meu dia".
A porta se abriu, ele anda em desabalada carreira, a mulher gritou algo, porém o homem dentro de sua concentração não a ouviu, a primeira escada rolante, tem uma fila muito grande, ele vai subir a escada rolante "Deus, eu preciso subir, eu não cheguei até aqui por nada". Ele usa a escada convencional.
Respirando fundo o homem chega a segunda escada rolante, essa ele não vai ignorar, esse tempo que a escada leva para subi-lo serve para ele se concentrar mais ainda em seu objetivo.
Dor, ele sente que vai dobrar ao meio, mais alguns passos ele estará na catraca. Ele está suando tanto que sua camisa está grudada a seu corpo como uma segunda pele, terceira escada.
Agora só faltam alguns passos "Só mais um pouco Deus", sobe a última escada.
... ...
O jornaleiro sentado em sua cadeira dentro da sua banca que fica ao lado da saída Cel. Xavier de Toledo do metrô Anhangabaú vê um homem estranho chegando para atravessar a rua, ele está andando todo duro, parece um robô. Ele deixa a revista que estava lendo e se põe a observar o homem, abre o semáforo o homem caminha com convicção andando duro, porem rápido em direção a esquina da esquerda onde existe um Ciber Café. O homem para olha ao seu redor e cai. Ninguém esbarrou no homem. E neste momento começa a chover torrencialmente, como é de costume em São Paulo.
O jornaleiro é o primeiro e chegar e ver.
... ...
Alguns dias depois podemos ouvir um repórter de televisão falando: A polícia ainda procura pistas do assassinato ocorrido na esquina da rua Sete de Abril com Xavier de Toledo. Um homem apareceu com um ferimento na barriga aparentemente causado por uma faca. O jornaleiro da banca em frente ao metrô Anhangabaú viu o homem sair da estação a cair logo após atravessar a rua. Ontem uma mulher se apresentou à polícia dizendo que esbarrou com o homem dentro do metro Anhangabaú e se sujou de sangue, ela gritou para ele, mas o homem subiu a escada rapidamente. O âncora continua - Teria sido muito mais fácil descobrir algo sobre o assassino deste homem se a polícia tivesse retirado o corpo do homem antes de começar a chover, quando o carro do IML chegou já fazia quinze minutos que o corpo do homem estava tomando chuva. Fique agora com a previsão do tempo.
"Para onde será que esse homem ia tão convicto?"

Revisão: Katia Veg

Terminal

Aqui é o fim da linha, se você não sair agora vai ter que voltar e começar tudo de novo.